Invasão de Privacidade
Patrícia Soares Viale
Nariz. Eu coço o meu nariz. Por dentro e por fora. Violentamente. Suavemente. Às
vezes sangra, me assusto, trato com remédio sério então. Olho o vermelho chamando minha
atenção. Curado o nariz volto a coçar.
Foi desta maneira que começou. Um dia importunei o nariz de leve. Mal toquei.
Acho que foi assim que iniciou. Um ato inconsciente ou premeditado. Percebi logo após ter
realizado o fato, pressenti o prazer e iniciei a feitura completa. Assim passei a coçar o nariz,
toquei os dedos na narina e fiz. Sem entender muito. Sem pensar. Foi automático. Faço e
pronto. Coço o nariz por dentro e por fora. Às vezes até cutuco, tiro cascas e casacas. E daí?
Não é sempre. Não é ato contínuo, só quando tem as peles secas ditas. Estas cascas criam-
se regularmente e me irritam profundamente. É algo preso, fixo, não saí, obstáculo puro.
Deve ficar assim quando esqueço de assoar o nariz. No banho dou uma assoada, porém a
preguiça bate e dia sim, dia não, faxino o nariz. Sequer limpo o mesmo nos dias não. Ando
assim, um tanto indisposta. Esquecendo o nariz, cotovelos, calcanhares e unhas do dedo
mínimo. Por que? Não sei. Talvez seja mal humor. Alguma falta química no organismo.
Alguma perda não pressentida. A verdade é que só questiono as coisas quando estas se
tornam crônicas de alguma maneira. Instalam-se como cupim na madeira e corroem,
comem sem compaixão o que está ao redor. Comem, mastigam e engolem. Mas não
excretam. As negações me fazem pensar. E depois de tanto pensar é que consigo tomar
alguma atitude, daquelas de mudar a direção do que vem acontecendo. Coçar o nariz é que
foi uma exceção. Já percebi o tocar, o fuçar. Já senti o sangue de tanto cutucar, só que
recorrer a uma atitude não é nada fácil. Por que? Acho que meu nariz tornou-se um refúgio.
Um esconderijo. Para tudo. Vou colocando tudo ali: medos, inseguranças, traumas, perdas,
frustrações, sonhos não vividos. Todo o lixo de uma vida. Uma bagagem bem pesada e
antiga, sem nada de doçura ou compensações. Uma mochila bem fechada ajustada nas
costas. Fico tão reta com esta sacola que nem ouso olhar para os lados. Me conformo com o
peso e sigo em frente. E muitas vezes seguir em frente de nada adianta. Apenas se passa e
pronto. Os olhos em linha reta não enxergam as árvores ao lado; o passarinho que voa em
zigue zague; a estradinha curta com duas casas de madeira ao longo... quanta coisa não se
vê, não se sente. E por isto continuo coçando o nariz. Por dentro e por fora. Violentamente.
Suavemente. Às vezes sangra, me assusto, trato com remédio sério então. Olho o vermelho
chamando minha atenção. Curado o nariz volto a coçar. Por dentro e por fora.
Violentamente. Suavemente. Às vezes sangra, me assusto, trato com remédio sério então.
Olho o vermelho chamando minha atenção. Curado o nariz volto a coçar...
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