A Rosa


Patrícia Soares Viale – 30/11/2.006


Recebi a Rosa numa noite muito bonita, apesar da chuva constante. Era um botão
ainda fechado, carregado de expectativas. Parecia única. Levei-a para a casa e coloquei-a
num pequeno vaso. Eu mudava a água todos os dias. O sol iluminava o ambiente e a Rosa
mostrava-se lentamente. Tão linda na suavidade dos primeiros movimentos. Mas um dia ela
começou a se despedir, sem sequer ter aprendido a dizer adeus. Já não se abria em abraços.
Ela começou a se encolher e suas pétalas curvavam-se para baixo. Cada vez mais para
baixo. Suas cores empalideceram e a água nem era tocada. Sua sede parecia ter terminado.
Ela ficava lá quietinha, independente do sol ou da chuva. Não se importava com minhas
passadas pela sala. Ficava calada quando eu perguntava sobre seu estado. Até cheguei a
pensar que quietude era uma escolha. E fui deixando os dias passarem. Calando a
ansiedade. Acordei numa manhã de trovoadas e chuva torrencial. Eu estava triste, com o
coração apertado e procurei a Rosa para admirar sua beleza e, egoisticamente, me consolar.
Ela estava lá. Mas sozinha em sua entrega. As pétalas de fora já estavam caídas e as de
dentro enrugavam. Tive vontade de chorar. Olhei para as minhas mãos, que nada mais
podiam fazer por ela. Minhas mãos de pele tão lisa diante de tal cenário grotesco. O que era
somente beleza envelhecia repentinamente Uma entrega sem volta. Eu sabia que nunca
mais teria a Rosa. Não adiantavam as ilusões. A esperança também não existia e a única
coisa que restava era me conformar e aguardar. Esperar a ida definitiva da Rosa. Mesmo
que eu não desejasse me conformar. Mesmo não querendo aceitar o fim daquela que
parecia eterna. Pensei em trocar a água. Talvez um pequeno corte no caule provocasse a
regeneração. Levá-la para um passeio na rua? As perguntas vinham e partiam sem resposta.

Nada se apresentava. Nada. Apenas sentar-me e esperar. Talvez segurar o rosto. Enxugar as
lágrimas com um lenço de papel ou deixá-las correrem livremente por este rosto surpreso e
sem expressão. A Rosa está se indo e estou sozinha. Não tenho a quem recorrer ou a quem
pedir ajuda. Nem um abraço. Ou uma palavra. Não existe pessoa alguma que possa fazer
isto. Pessoa alguma. A Rosa foi-se. Indo. Sem um aceno. Um suspiro. Uma recomendação.
Apenas foi-se.
E eu fiquei.

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