Marina de Mar
Patrícia Soares Viale – 04 de junho de 2003 –
Gramado/Brasil
Quando as
portas da igreja abriram-se, Marina se viu sozinha. Como se estivesse em
alto-mar. Os padrinhos minúsculos num canto, o padre próximo à invisibilidade
no meio do altar. Não existiam convidados e o tapete espichado no corredor da
igreja parecia encolhido, como depois de uma longa tempestade. Quantos
pensamentos navegavam naquele mundo silencioso? Marina viu o rosto do noivo e
nele o futuro com cara de pedido sem benção. Seus pés caminhavam sem que ela
pedisse. Ora nadavam de costas, ora boiavam. Porém sempre adiante no caminho
marcado. Marina não enxergava seu rosto. Não via suas mãos, mas sabia que
carregava um buquê de flores e que a calda de seu vestido era tão longa quanto
seus devaneios. Tantos detalhes que pesavam na trajetória. Em situações frágeis
e de emergência recomenda-se não carregar peso supérfluo. Era uma sereia de
água doce que ouvia o clamor do mar. Ele a chamava, gritava seu nome pela boca
de estranhos. Marina sentia as vibrações do chamado e não reagia. Tentava.
“Mergulhe Marina”, dizia um homem calvo, quase desdentado e bem velho. Ou na
verdade, um bom velho. Um homem com jeito de quem não julga e abandonou as
expectativas antes de conhecê-las.
Marina olhou o
altar e mais uma vez não se reconheceu no momento. Perguntava-se sobre o motivo
primeiro daquela ocasião, mesmo estando com o vestido branco. Tinha certeza
sobre a realidade, só não sabia em que mundo. As respostas, muitas com caras
amarradas, sobrevoavam sua cabeça. Quantas caretas ela teve neste tamanho dia
festivo? Nenhuma se manifestava, apenas mostravam caminhos aéreos, repletos de
pontilhados. Talvez no mar ela se enxergasse, bastava fugir da igreja e navegar
até o ponto de chegada. Nadar até uma ilha qualquer e ali viver. Não via sua
mãe por perto. E seu pai? Ainda seria vivo? Como se sentiria ao vê-la casando?
Talvez como o homem idoso recomendaria à própria filha, a se jogar de cabeça e
nadar com os peixes. Marina quase acreditava que sim. Os pés experimentavam a
água, entrando devagar e insistindo neste passo miúdo. Lembrou da mãe
costurando o vestido. Filha minha não casa com vestido das outras. E passava a
linha branca no buraco da agulha. Aquela hastezinha fina de aço imergia no
tecido, de maneira tão delicada e calma. Não fique nervosa Marina. Ainda temos
tempo. Quero bordar as mangas também. Serás a noiva mais linda que este mundo
já viu. Naquele dia pensei que a frase era típica de mãe em vésperas de núpcias
da cria, mas conforme a data foi se aproximando a afirmação era minha. Eu
desejava ser a noiva mais linda. A mais elegante, mais invejada. Seria o
momento mais adequado para uma transformação. Para me encantar com novos
cenários. O mergulho profundo sem dores e traumas. Respirar pausadamente,
controlando os batimentos cardíacos, a excitação. Só que o nariz se atrapalhava
com máscaras. Impossível mergulhar com proteção e sem a tal parecia arriscado.
O poeta vivo esticava seus braços chamando-me. Estava em algum lugar que eu não
reconhecia. Estaria ele me esperando ou teria encontrado consolo nos braços de
uma Doralice qualquer? Seria silêncio ou mudez? Ele desaprendera as canções, os
poemas ou um outro código qualquer que chegasse a mim.
Minha mãe terminou o vestido dois dias antes
do casamento. Os convites foram distribuídos e a festa planejada. Até mesmo o
tempo colaborou e a chuva ficou dormindo no outro canto do mundo. Uma brisa
soprava e os veleiros abriram suas velas. Para minha entrada na igreja tinha
coral, chuva de pétalas de rosas, aroma gostoso. E uma longa cauda branca
oscilava entre os convidados. A espuma das ondas chegava à praia. As crianças
tentavam pegá-la entre corridas e gargalhadas. O barulho estava longe, tão
longe. Porém tão puro, que eu já percebia o mar.
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